Do hospital ao ringue: como o Muay Thai ajudou Sophia a vencer os limites impostos pela asma

*Marcio Valle / Primeiro Round:

Durante os primeiros anos de vida, a rotina de Sophia era marcada por crises respiratórias, hospitais e internações. Aos dois anos de idade, começaram as crises de asma, mas o diagnóstico não veio imediatamente.

Foi no Hospital Evangélico de Curitiba que a família finalmente ouviu da médica: “Mãe, ela tem asma. Vai precisar fazer tratamento direto”.

A partir daquele momento começou uma longa batalha. Sempre que uma crise aparecia, a mãe corria para o médico e, muitas vezes, Sophia precisava ficar internada. Oxigênio, medicamentos e, em algumas ocasiões, pneumonia e antibióticos passaram a fazer parte da rotina da família.

Foram aproximadamente quatro anos convivendo com a asma grave.

A preocupação fazia com que a mãe tentasse controlar todos os possíveis gatilhos. Sophia precisava ter cuidado ao correr, diante de mudanças bruscas de temperatura e até com cheiros fortes. Ainda assim, as crises continuavam acontecendo.

Até que o esporte entrou na história.

O filho mais velho da família enfrentava problemas na escola, com agressões e bullying praticados por colegas. Foi quando um amigo indicou o Projeto Bernardo, um projeto social ligado a uma igreja no Sítio Cercado, em Curitiba.

A família decidiu experimentar uma aula.

Sophia, sempre muito ativa e curiosa, também quis participar.

“Meu coração apertou, porque ela tinha que correr. Aí perguntei ao professor se ela podia. Ele falou: ‘Podemos ir no tempo dela’”, conta a mãe.

A postura cuidadosa do professor deu segurança para que Sophia continuasse.

Os treinos foram se tornando frequentes. E aquilo que inicialmente era apenas uma experiência acabou se transformando em paixão.

Com o passar do tempo, algo que parecia improvável começou a acontecer: as crises graves de asma deixaram de fazer parte da rotina como antes.

Sophia não precisou mais ser internada por causa das crises e, segundo a mãe, quando surgem sintomas, a família consegue controlá-los em casa.

O Muay Thai também conquistou a mãe, que passou a treinar junto com os filhos.

“Amamos muito esse esporte”, resume.

Do treino para o ringue

A relação de Sophia com o Muay Thai ganhou um novo capítulo quando a família foi assistir à luta de um amigo do projeto.

Foi naquele momento que ela tomou uma decisão.

“Eu quero lutar também.”

O professor conversou com Sophia e perguntou se era realmente aquilo que ela queria.

A resposta foi direta:

“Sim, eu quero.”

Depois de algum tempo, surgiu uma adversária para a primeira luta. Na pesagem, porém, veio a preocupação: a adversária tinha cerca de 10 quilos a mais.

O professor chegou a conversar com Sophia e explicou que não havia problema em deixar a luta para outra oportunidade. A prioridade era evitar que ela se machucasse.

Mas Sophia manteve a decisão.

Ela queria lutar.

Até o responsável pelo evento chegou a sugerir que, caso ela não aguentasse, poderia ser realizado apenas um round.

Não foi necessário.

Sophia permaneceu firme durante os rounds e saiu daquela experiência ainda mais determinada.

Desde então, quando aparece uma nova luta, a resposta costuma ser a mesma.

Ela quer ir.

Segundo a mãe, não é raro que as adversárias sejam maiores ou mais pesadas. Mesmo assim, Sophia não demonstra medo.

Hoje, ela já soma três lutas e aguarda ansiosamente pelas próximas oportunidades.

A luta mais recente

No Prodigy Combat, a família voltou a viver um momento de apreensão.

Uma semana antes da luta, descobriram que a adversária de Sophia era aproximadamente sete quilos mais pesada e também mais alta.

A família tentou convencê-la a não lutar.

Sophia lembrou da primeira experiência.

“Na primeira luta, a menina tinha 10 quilos a mais que eu. Então eu vou.”

A família decidiu apoiá-la.

O resultado dessa história pode ser acompanhado no vídeo publicado no YouTube, que registra mais um capítulo da trajetória da jovem atleta.

Um projeto que transforma vidas

Por trás da história de Sophia existe também o trabalho social realizado pelo projeto no Sítio Cercado.

O modelo permite que cada adulto que paga pela atividade gere uma vaga para uma criança, possibilitando que outras crianças tenham acesso ao esporte.

E os resultados aparecem também dentro da própria família.

O filho mais velho, que inicialmente chegou ao projeto por enfrentar bullying e agressões na escola, também passou a praticar lutas.

Segundo a mãe, o esporte teve um papel importante em sua transformação. O adolescente passou a desenvolver mais disciplina e foco, ganhou confiança para se comunicar e fez novas amizades.

Hoje, de acordo com a família, ele está bem na escola e não enfrenta mais os mesmos problemas de antes.

Para a mãe, a transformação de Sophia e do irmão mostra que o esporte pode ultrapassar os limites do tatame e do ringue.

Mais do que aprender a lutar, eles aprenderam a enfrentar desafios.

E é justamente essa mensagem que ela gostaria que outras crianças e outras mães enxergassem na história de Sophia.

Que elas também possam conhecer o esporte, experimentar, persistir e descobrir novas possibilidades.

Porque, para essa família, o Muay Thai não foi apenas uma atividade física.

Foi uma mudança de vida.

E, no caso de Sophia, foi a descoberta de que aquilo que um dia parecia uma limitação poderia deixar de definir até onde ela poderia chegar.

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