Segurança em eventos de lutas acende alerta para estrutura médica e responsabilidade dos organizadores

A realização de eventos de lutas exige mais do que um espaço adequado para o combate, arbitragem e organização esportiva. A própria característica das modalidades de contato, marcada por golpes, quedas e traumas sucessivos, exige atenção especial à segurança dos atletas e também do público.

O alerta é feito pelo médico Dr. Oscar Achá, que chama a atenção para a necessidade de protocolos médicos e de segurança mais rigorosos nas competições de modalidades de combate realizadas no país.

Segundo o especialista, toda prática esportiva está sujeita a lesões e acidentes, mas esportes de contato apresentam características que podem elevar o risco de ocorrências graves. Por isso, a preparação para uma emergência deveria fazer parte do planejamento do evento desde sua concepção.

“Sabemos que a prática de esportes em qualquer modalidade está sujeita a risco de lesões e até à perda da vida. Só que, em quase todos esses eventos, sempre há uma equipe médica completa, com ambulância, UTI, médico, enfermeiro e socorrista”, afirma Dr. Oscar.

Estrutura médica

A Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) estabelece a segurança e a saúde como princípios fundamentais do esporte e prevê obrigações específicas relacionadas à assistência médica e de enfermagem em determinados eventos esportivos. Entre as disposições previstas na legislação está a disponibilização de profissionais de saúde e ambulâncias em determinadas situações.

Para Dr. Oscar, independentemente do formato ou porte da competição, eventos de lutas deveriam considerar previamente a possibilidade de uma ocorrência médica grave.

Na avaliação do especialista, uma estrutura de atendimento não deve ser pensada apenas como uma ambulância posicionada no local. É necessário definir quem será responsável pelo atendimento, quais profissionais estarão presentes e quais procedimentos poderão ser realizados em caso de trauma.

A presença de médico é fundamental, já que ele é o profissional habilitado para avaliar clinicamente o atleta e indicar os procedimentos necessários à equipe que o acompanha”, explica.

O risco não está apenas dentro do ringue

A preocupação também envolve o público.

Em eventos com espectadores, a organização precisa considerar a possibilidade de emergências médicas entre os próprios presentes. A estrutura de segurança, portanto, deve contemplar atletas, equipes técnicas, árbitros, funcionários e espectadores.

A legislação esportiva também estabelece direitos e mecanismos de proteção relacionados à segurança e ao bem-estar do público nos eventos esportivos.

Exames antes da competição

Outro ponto levantado pelo médico é a necessidade de avaliação prévia dos atletas.

Entre as medidas defendidas estão atestado de saúde emitido por médico e exames clínicos e laboratoriais que permitam identificar condições capazes de representar risco durante a competição.

A Lei Geral do Esporte prevê, no âmbito do esporte profissional, a realização de exames médicos e clínicos necessários à prática esportiva e exames periódicos para avaliação da saúde dos atletas.

Para o especialista, a preocupação não se limita ao atleta individualmente. Em modalidades nas quais dois competidores entram em contato físico direto, as condições de saúde de cada participante também podem ter impacto sobre o adversário.

Categorias, idade e equipamentos

Dr. Oscar também chama atenção para a necessidade de critérios mais rigorosos na formação das lutas.

Diferenças significativas de peso, idade, experiência ou nível técnico podem aumentar o risco de lesões. Por isso, segundo ele, o pareamento dos competidores precisa ser tratado como uma questão de segurança, e não apenas de organização esportiva.

O uso adequado dos equipamentos de proteção também faz parte desse processo. Entre os itens citados estão bandagens, protetor bucal e coquilha, de acordo com as regras e características de cada modalidade.

A função do cutman

Outro ponto destacado pelo médico é o trabalho realizado entre os rounds.

Em modalidades como o boxe, o profissional responsável pelo tratamento e controle de cortes é conhecido como cutman. A função vai muito além de simplesmente aplicar vaselina no rosto do atleta.

O profissional integra a equipe técnica e atua dentro de protocolos específicos para controle de cortes e ferimentos durante a competição.

Profissionais de enfermagem

A composição da equipe de atendimento também precisa respeitar as atribuições legais de cada profissional.

A legislação que regulamenta o exercício da enfermagem estabelece competências específicas para enfermeiros, técnicos e auxiliares, além de determinar que determinadas atividades sejam exercidas sob supervisão de enfermeiro.

Por isso, a definição da equipe de atendimento deve considerar não apenas a presença física de profissionais, mas também suas habilitações, atribuições e responsabilidades.

Prevenção é parte do espetáculo

Para Dr. Oscar, ocorrências graves são relativamente raras quando comparadas ao volume de competições realizadas, mas isso não significa que possam ser ignoradas.

O princípio defendido pelo especialista é que a segurança precisa ser planejada antes do primeiro combate.

“Sabemos que são raros os incidentes, mas ocorrem”, resume.

O crescimento do número de eventos de lutas em academias, clubes, bares, centros esportivos e outros espaços reforça a importância de discutir padrões mínimos de segurança para competições de diferentes portes.

A questão não é eliminar o risco — algo impossível em esportes de combate —, mas estabelecer condições para reduzi-lo e garantir uma resposta rápida caso uma emergência aconteça.

Em uma modalidade na qual o contato físico faz parte da competição, a preparação para o imprevisto também precisa fazer parte do evento.

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