A rotina de uma lutadora costuma ser associada a treinos intensos, preparação física, competição e disciplina. Para Eduarda Derlan Piazinho, porém, existe também espaço para algo que, à primeira vista, parece distante do universo das lutas: os livros.
Natural de Rio Bonito do Iguaçu e treinando em Laranjeiras do Sul, no interior do Paraná, Eduarda desenvolveu desde cedo o gosto pela leitura. A paixão começou ainda na biblioteca da escola, com os livros da série Diário de um Banana, e acabou se transformando em um hábito que permanece até hoje.
“Eu realmente gosto muito de ler, acho que foge bastante do dia a dia hostil de um lutador”, explica a atleta, que atualmente vem se aventurando também pelos clássicos da literatura. O repertório, no entanto, não se limita aos grandes nomes da literatura: ela também admite gostar de suspenses e dos chamados clichês adolescentes.
“Eu sou uma senhora, mas nem tanto!”, brinca.
A possibilidade de escrever um livro no futuro não está descartada, embora Eduarda ainda não tenha decidido se seguirá esse caminho. Ela observa que muitos lutadores que se aventuraram na literatura optaram por autobiografias, gênero que não está entre seus favoritos.
A relação entre literatura e luta aparece também quando Eduarda é questionada sobre o que recomendaria a outros atletas. Em vez dos tradicionais livros sobre superação, ela escolhe dois clássicos: 1984, de George Orwell, e A Metamorfose, de Franz Kafka.
“Além de bons de porrada, nós precisamos ser inteligentes e astutos fora do ringue”, afirma.
Para ela, a formação de um atleta não deve ficar restrita à preparação física ou técnica. A capacidade de pensar, interpretar e compreender o mundo também faz parte da construção de quem pretende competir em alto nível.
Essa visão ajuda a explicar outro aspecto marcante de sua trajetória: aos 15 anos, Eduarda recebeu um reconhecimento do Primeiro Round que não estava diretamente relacionado às lutas.
O prêmio veio após a atleta se envolver com ações de auxílio às pessoas afetadas pela tragédia de um tornado. Naquele momento, segundo Eduarda, a preocupação não estava em receber qualquer reconhecimento, mas em ajudar quem precisava.
“Quando a dor do outro não doer em mim, eu desconheço o amor”, resume.
Ela conta que, diante da tragédia, não enxergou uma oportunidade de reconhecimento, mas pessoas necessitando de diferentes formas de ajuda — financeira, mão de obra e apoio psicológico.
A experiência acabou mostrando que sua atuação poderia ir além do esporte e que um atleta também pode utilizar sua visibilidade para olhar para a sociedade ao redor.
Eduarda também fez questão de agradecer pelo reconhecimento e já projeta um reencontro com o Primeiro Round na edição especial do First Round Awards 2026, que celebra os 20 anos da revista.
Se existe alguma dúvida sobre o tamanho da ambição de Eduarda dentro das lutas, ela própria faz questão de afastá-la.
“Dizer que eu tenho vontade seria pouco. Vontade todos têm”, afirma.
A atleta não esconde que o objetivo é chegar ao UFC. Para ela, a rotina necessária para alcançar esse sonho exige muito mais do que simplesmente gostar de treinar.
“Se eu não fosse obcecada por uma carreira, por um lugar no UFC, não teria sentido passar tudo que eu passo.”
O caminho, entretanto, não é romantizado. Eduarda admite que são raros os dias em que realmente sente vontade de treinar. Ainda assim, mantém uma rotina de seis dias de treinamento por semana há três anos.
“Isso resume o meu futuro”, define.
A declaração seguinte deixa ainda mais clara a confiança da jovem atleta em seu próprio potencial:
“Eu não quero ser, eu vou ser profissional, e serei a melhor.”
E, para as adversárias que ainda a enfrentam no amador, ela deixa um recado em tom desafiador:
“Aproveitem para me bater enquanto eu estiver no amador, porque quando o pró chegar, ninguém me segura!”
Entre páginas de livros, treinos e combates, Eduarda Berlan Piazinho vai construindo uma trajetória que pretende levá-la muito além do cenário regional. O destino que ela mesma estabeleceu é claro: o profissionalismo e, no horizonte, o UFC.
CONTATO:
Primeiro Round
jornalismo@primeiroround.com.br
marciovallefotos@gmail.com
© Todos os direitos reservados 2022/2023 – Marcio Valle ♦ Desenvolvido por Casa9 Marketing Digital e Design