A história de Marcio Sarmento no Jiu-Jitsu começou em 1991, na academia Kyoto, na Tijuca, sob a orientação do Grão-Mestre Chico Mansur. Embora tenha seguido carreira de alto rendimento no polo aquático, chegando à Seleção Brasileira e disputando competições internacionais, o esporte que o acompanhou desde a infância voltaria a ocupar papel central em sua vida anos depois.
O retorno definitivo ao Jiu-Jitsu aconteceu de forma inesperada, após um acidente de carro que o levou a conhecer o faixa-coral Carlos Henrique, o Mestre Carlinhos, e posteriormente o Mestre André Negão. A partir daí, Sarmento aprofundou sua caminhada na arte suave, tornou-se parceiro de treinos da lendária Hannette Staack e ajudou a construir a BRA 01 – School of Jiu-Jitsu. Mais tarde, reencontrou o amigo de longa data Rodrigo Prujansky, com quem fundou o The Center for Human Development, em Boca Raton, nos Estados Unidos, onde recebeu a faixa-preta em 2026.
“O que me manteve no Jiu-Jitsu por todos esses anos não foi apenas o amor pela arte marcial. Foi a descoberta de que o tatame é um dos ambientes mais poderosos de transformação humana que existem e que eu tinha um papel específico a cumprir dentro dele”, afirma Sarmento.
Foi justamente dentro das aulas para crianças que surgiu seu interesse pela neurodivergência. Ao perceber que alguns alunos respondiam de forma diferente aos métodos tradicionais de ensino, ele iniciou uma profunda jornada de estudos em neurociência aplicada, análise do comportamento, pedagogia especializada e integração sensorial. A experiência prática e o conhecimento acadêmico deram origem à Metodologia Sarmento, um protocolo estruturado de desenvolvimento neurofuncional por meio do Jiu-Jitsu.
Ciência e transformação no tatame
Para dar sustentação científica ao trabalho desenvolvido nos tatames, Sarmento buscou formação especializada em áreas ligadas ao desenvolvimento infantil e à neurodivergência. Entre suas qualificações estão a certificação RBT (Registered Behavior Technician), credenciada pela BACB, referência internacional em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), além da certificação INAMI em Artes Marciais e Autismo. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, sua metodologia tem sido aplicada com crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, Síndrome de Down e outras condições do neurodesenvolvimento.
Formalmente registrada nos Estados Unidos em 2026, a metodologia organiza as aulas em etapas previsíveis e monitora diferentes aspectos do desenvolvimento dos alunos, como autonomia, atenção, coordenação motora, autoestima e interação social. O programa também envolve familiares e professores, criando uma rede de apoio capaz de potencializar os avanços conquistados no tatame.
Um dos casos que mais marcaram sua trajetória aconteceu já nos Estados Unidos, quando uma família chegou ao The Center for Human Development com três filhos, de oito, cinco e três anos, enfrentando dificuldades constantes de convivência e comportamento. Segundo Sarmento, os pais já haviam tentado diferentes abordagens sem sucesso. Após uma semana de aplicação do protocolo, o pai o procurou emocionado.
“Ele chegou para mim e disse: ‘Você fez um milagre’. Mas não era milagre. Era método, era estrutura, presença e a convicção de que cada criança tem mais potencial do que o mundo espera dela. Mais de um ano depois, essa família continua treinando conosco e me disse algo que guardo como uma das maiores conquistas da minha carreira: ‘Aonde você for, a gente vai atrás’”, relata o faixa-preta.
Para Sarmento, o Jiu-Jitsu possui características únicas para contribuir com o desenvolvimento de crianças neurodivergentes, oferecendo estrutura, disciplina, contato físico controlado e progressão clara. Seu objetivo agora é expandir a metodologia por meio da formação de instrutores capacitados, ampliando o alcance de uma iniciativa que une esporte, educação e inclusão. “O Jiu-Jitsu nasceu no Brasil e conquistou o mundo. Acredito que também pode liderar um movimento global de inclusão. O tatame nunca mente e ele tem espaço para todos”, conclui.
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